sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Joel Santana, no Cruzeiro: “Ô da Mercedes”


A tecnologia, a globalização e a facilidade para obtermos hoje as informações, com imagens do que está acontecendo no mundo em minutos, sendo que no passado levava-se meses e até ano para termos os documentos dos fatos, muitas vezes com uma simples fotografia, mudaram a relação humana. Quando éramos crianças nossos pais exigiam o maior respeito aos idosos, porque eles tinham a sabedoria da vida na ponta da língua. Houve o inverso da moeda. Agora, são os experientes, para não chamá-los de velhos, que são os mais contestados pelos jovens. Foi embora o respeito. Aqueles que têm a responsabilidade de fazer a opinião, através da comunicação, têm de ter o devido cuidado para não ferir aqueles que fizeram sua história, mas que cometeram alguns deslizes.  O que é mais do que natural. Uma destas pessoas é o técnico Joel Santana, o Papai Joel como faz questão de ser chamado.  Não completou nem quatro meses como técnico do Cruzeiro e deixou lá muitas histórias, duas delas fantásticas. Ele apresentava dificuldades para memorização e acima de tudo problemas físicos para ser o comandante técnico. Por estas razões não pôde concluir o seu trabalho. Os dirigentes eram obrigados a fazer muitas manobras para que os jogadores não percebessem que estavam sendo dirigidos por uma pessoa um pouco ou bem debilitada para o Futebol.

No primeiro momento todos observaram que ele não conseguia fixar os nomes dos jogadores. Os repórteres também e em respeito, não perguntavam a ele a formação. Nos treinamentos, ficava claro que Joel sabia o nome de poucos. Nos jogos, saia do banco de reserva e perguntava ao seu assistente, Marcelo Salles, que era obrigado acompanhar todas os seus movimentos, o que estava acontecendo. Dava a nítida impressão de que sua mente não estava ali no campo de jogo. Numa das preleções, os jogadores então viram como Joel Santana estava longe da noção dos fatos: “Você da Mercedes vai jogar pela ponta, caindo por onde gosta, puxando o contra-ataque”. Todos sabiam que ele referia-se ao atacante Thiago Ribeiro (hoje atacante do Santos) e foi aquela gargalhada, quando alguém perguntou: “Mas quem é o da Mercedes?”. Joel não conseguiu fixar seu nome. Apenas ficou forte em sua mente que era o proprietário de uma Mercedes,  a máquina dos sonhos do menino Joel Santana. Todo dia ele fazia questão de admirá-la e repetir: “Como é lindo este carro”. A mesma cena hoje e amanhã. Era festa quando percebia que ele caminhava para o estacionamento para ver o carro.

O outro fato também ocorreu no vestiário. É sabido no Futebol, que ele é adepto de despachos, acreditando que uma boa “terreirada” é capaz de levar o time à vitória, mesmo consciente de que se fosse real na Bahia, todos os jogos terminariam no empate. No Cruzeiro havia os católicos, maioria, evangélicos e budistas. Também os ateus. Os evangélicos não admitem atos de umbanda ou candomblé no trabalho. Em uma das preleções, Joel estava pouco ligando para as regras da relação humana e religiosa, soltou o verbo, com seus devidos apetrechos nas mãos: “Meus amigos, a fase não é boa. O ambiente aqui está muito carregado e nós temos de fazer uns trabalhos para que domingo seja um dia de vitória”. Um de seus auxiliares carregava incensos, que foram acesos. Passaram pelas mãos de A, B, C. E Joel falou: “Agora é a vez do Fábio. Ele fica lá atrás e precisa estar ainda mais forte. Coloque nas  mãos dele”. O nome  do goleiro  o técnico guardou. Fábio ficou possesso. “De maneira nenhuma. Meu Deus não permite”. Poucos dias depois, Joel não era mais técnico do Cruzeiro. 

Por estas e outras, agora ele diz que vamos jogar no 4-1, 4-1. Ele tem espaço ainda no Futebol, do contrário não estaria dirigindo o Vasco. Meu respeito, Papai Joel.





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