sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Você gosta é de grama. Aproveite e coma a vontade

Tião Cavadinha

O torcedor sabe que dentro de campo há muitas provocações entre os jogadores que tentam alterar emocionalmente o adversário para levar vantagem. Alguns não conseguem manter o equilíbrio e se perdem. Elas fazem parte do jogo, algumas, as mais absurdas, envolvendo as irmãs, mães, namoradas, etc. Na Copa do Mundo de 2006 todos recordam da cabeçada do francês  Zidane no italiano Materazzi, na final vencida pelos italianos. O francês se recrimina pelo gesto, mas mostra inflexível: "Prefiro morrer a pedir desculpa". Ele diz que reagiu com uma cabeçada aos insultos a sua mãe:  “Mais de uma vez insultaram a minha mãe e nunca respondi. Mas ali... ela estava doente, no hospital. Era mau momento". Já ouvi cada história que não dá para acreditar. O capitão do Santos, Edu Dracena, quando zagueiro do Cruzeiro, contou-me que atos de racismo, com um chamando o outro de macaco, entendia como algo simples, integrado ao jogo. Um carinho pelo que se ouve, garantiu. “Praticamente em toda falta, uma bola dividida, quem perde solta uma. A mais cabeluda possível”, diz.

No meu começo no jornalismo, ficava encantado com tudo e não queria perder nenhum lance. Os primeiros clássicos Atlético x Cruzeiro, no Mineirão, foram espetaculares, com o estádio cheio (mais de 100 mil pessoas) e festas emocionantes dos torcedores. Eles queriam mostrar que suas torcidas eram maiores e mais vibrantes. Um outro tempo, com as famílias presentes, figuras folclóricas do futebol, sem violência e drogas e ingressos ao alcance de todos, com preços acessíveis aos assalariados . Aos poucos foram surgindo as torcidas organizadas, meu pai as batizam como as desorganizadas, e o espetáculo da arquibancada foi mudando.  Dentro de campo a disputa mexia com todos os sentimentos e eu queria documentar tudo. Num destes clássicos, fiz questão de ficar à beira do gramado (era permitido aos repórteres da imprensa escrita, devidamente credenciados) para ouvir um pouco de cada jogador durante a disputa. Acreditava que a maioria procurava era incentivar o companheiro, com as tradicionais palavras  do jogo:  “vamos que esta bola é nossa, aperta, fecha, corra, essa é sua, chuta, etc”. 

Meu espanto foi ouvir o diálogo de Tião, ponta do Atlético, conhecido como “Tião Cavadinha”, pela precisão nos cruzamentos, com o lateral Pedro Paulo, do Cruzeiro, que tinha sido seu companheiro quando estava ainda na categoria de base (na época juvenil) e Tião já profissional. Então ouvi ele falando: “Você gosta é de grama, não é. Veja que maravilha este gramado. Pode comer a vontade”. Pedro Paulo respondia: “Seu filho.....” E batia por baixo.  Repetiu-se esta cena três vezes ou mais. Na última, Pedro Paulo, que não era de brincadeira e pegava forte, não aguentou e o acertou o adversário. Foi uma daquelas jogadas para não perder a viagem. Claro, recebeu o cartão vermelho, mas jamais pediu perdão pelo ato. Pelo contrário, sempre comentava: “Com o Tião não tinha jeito. Só na pancada”. Fizeram grandes duelos no Mineirão. Os dois são falecidos. Tião ainda jogou no Siderúrgica, de Sabará, onde foi campeão mineiro em 1964 e, em seguida foi levado pelo técnico Yustrich para o Atlético, no final dos Anos 60. Sabia prender a bola. Aproximava do marcador, dava as costas e ficava com o domínio da bola, sem praticamente sair do lugar. Ele suicidou-se no Rio de Janeiro, alguns anos depois de deixar o Futebol.






Nenhum comentário:

Postar um comentário